12 de julho de 2014

Bienal de Arte de Vila Verde encerra com intenção reforçada do Município em investimento nas Artes e na Cultura

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Uma tertúlia em torno da reflexão da Arte na Sociedade marcou o encerramento, esta tarde, da 8ª Bienal Internacional de Arte Jovem de Vila Verde. Esta sessão juntou artistas como Rafael Cruz,  artista mexicano que recebeu uma Menção Honrosa na 8ª Bienal, e que viajou até Portugal com o total apoio do governo mexicano; e Maciel Cardeira, presidente da D'Arte e primeiro vencedor da Bienal de Vila Verde, que se juntaram a representantes de orgãos decisores, como Dr. Manuel Barros, diretor regional do IPDJ, durante anos inserido na organização desta Bienal, e ainda o anfitrião deste certame e grande impulsionador desde a sua primeira edição, o presidente do Município de Vila Verde, Dr. António Vilela. A conversa foi moderada pelo artista plástico e coordenador artístico desta Bienal, Luís Coquenão. Na despedida ficaram os elogios e os votos para que esta Bienal persista, e se possível crescendo, porque é através da arte e de eventos deste gabarito que as sociedades medem o seu grau de riqueza.

Foi o último a intervir, mas as suas palavras serviram para encerrar oficialmente a 8ª Bienal de Arte Jovem de Vila Verde, assumindo o carácter de compromisso público. O presidente do Município de Vila Verde, Dr. António Vilela, deixou clara a aposta do seu executivo: "É pela criatividade que queremos marcar a diferença, colocá-la ao serviço do desenvolvimento e já o fizemos de forma sustentada e bem-sucedida com os Lenços de Namorados", exemplificou.
No ambiente intimista da sala superior da Biblioteca Municipal de Vila Verde, cerca de três dezenas de privilegiados assistiram à tertúlia que mostrou quão preciosa a arte e a cultura são, e a forma como atualmente valoriza as sociedades, sendo um investimento seguro de futuro. A presença de Rafael Cruz, jovem artista mexicano, consagrado na edição presente com uma Menção Honrosa, e que durante uma semana permaneceu em Vila Verde com o alto patrocínio do governo do México, teve como missão cruzar ideias e conhecimentos com os artistas nacionais e beber da cultura local, partilhando, em simultâneo, a evolução das artes no seu país.

"No México, a arte e os artistas foram desde sempre influenciados pelas lutas sociais, pelos símbolos nacionais e pelas nossas raízes", explicou Rafael Cruz. "O carácter artístico da nação começou a definir-se com a revolução de 1910, com a queda da ditadura, um século depois da independência. Finalmente o México aceitava a sua vertente europeia e a sua vertente indígena e fundia-a", continuou o jovem artista mexicano, também docente de uma faculdade de belas artes no México.

Rafael Cruz tornou-se, por momentos, embaixador do seu país em Vila Verde. Citando o prémio nóbel da literatura de 1990, o seu compatriota já falecido Octavio Paz, numa reflexão deste sobre a arte, "Há três maneiras de balancear a arte: 1) através do espírito da época; 2) através do espírito do país ou da sua escola; 3) através do espírito pessoal de cada artista". O México, sendo um estado, como confirmou Rafael Cruz, com bastantes limitações, lutas sociais "como a violência, a desigual distribuição da riqueza, o narcotráfico,... acaba por desenvolver uma consciência social que se traduz de forma muito reveladora e criativa através da arte". É neste país que se poderá encontrar "o maior mural do mundo", uma forma de expressão artística popular e democratizada da arte, que foi "incentivada pelo próprio governo, na primeira metade do século passado", revelou Rafael Cruz.

O mais reconhecido artista mexicano do momento, Gabriel Orozco, vencedor da última Bienal de Arte de Veneza, "venceu porque enviou uma caixa de sapatos vazia, com a mensagem: 'estou tão 'liso' que nem um par de sapatos para enviar tive...'. Foi o seu sentido de humor aliado a esta leitura social que convenceu o júri", explicou o artista mexicano, salientando o carácter crítico que a arte deve assumir como uma voz que é escutada universalmente

Porém, a crise ameaça o investimento na arte e o desenvolvimentos dos talentos a ela associados, colocando em 'perigo' o futuro desta área. O apoio de organismos como o Instituto Português do Desporto e da Juventude e de Municípios que invistam e mantenham eventos de impulso artístico, como a Bienal de Arte Jovem de Vila Verde, são cruciais. Dr. Manuel Barros assumiu o seu duplo papel, como atual responsável pelo IPDJ, na região norte, um dos organismo estatais que mais apoio tem prestado a este certame, ao nível dos jovens artistas, e na pessoa que esteve responsável pela coordenação da organização de três destes eventos, então associado ao Município de Vila Verde.

Numa breve resenha histórica recordou porque é que a aposta na cultura é um ganho e por que é que o 'seu' concelho se distingue, a este nível"a cultura é, seguramente, um fator de diferenciação na visão de desenvolvimento social, e a arte assume uma dimensão central na vida política, social, cultural e económica das sociedades contemporâneas, não sendo o desenvolvimento humano compreensível, nem realizávvel, sem o reconhecimento do papel da criação artística". Manuel Barros liderou a organização de três das Bienais de Arte Jovem de Vila Verde, numa experiência que classificou como"Riquissima e que me porporcionou um contacto direto com a dinâmica artística e com os artistas", um crescimento do evento que atingiu o auge com a realização de "um fórum, no IEMinho, que procurou uma linha diferenciadora para esta Bienal, e que culminou com uma 'carta de recomendação' aos decisores políticos locais, sugerindo a criação de uma programação denominada 'Vila Verde, Vila Criativa', tendo como inspiração a matriz identitária deste concelho e onde assenta a marca Namorar Portugal: os Lenços de Namorados", revelou o diretor regional do IPDJ.

O artista plástico Luís Coquenão recordou a responsabilidade do município de Vila Verde"ainda mais agora, integrando a rede das cidades educadoras". "A palavra correta é 'responsabilidade' a mesma a que fui chamado quando fui convidado pelo Manuel Barros a integrar esta Bienal, numa fase em que eu me desligava das palavras e concentrava-me mais na obra", confessou o consagrado pintor português.

A criação da iniciativa A Bienal na Escola, no hiato da Bienal principal, não só resolveu, por antecipação, essa preocupação, como preencheu outras, como a formação de novos talentos (que começa agora a dar frutos: uma das obras premiadas nesta Bienal pertence a alunos de uma escola de Vila Verde), o desenvolvimento de espírito crítico em relação às artes, a diferenciação do território gerando um novo atrativo imaterial, que mereceram da parte de entidades presentes nesta tertúlia os maiores elogios: "A arte está na vanguarda das transformações sociais. Mas só estará se estiver no cerne da sociedade e isso 'ensina-se'. Dou os parabéns a este município, que está a fazer um 'papelaço' em relação a isso. E não há economia que pague isso!", afirmou, inequivoco, Dr. Carlos Morais, da Univerisdade Católica Portuguesa, partilhando o seu testemunho nesta tertúlia.

Porém, a missão ainda está longe de estar concluída, como chamou a atenção Maciel Cardeira, jovem artista plástico, presidente da associação de artistas do Baixo Minho, D'Arte e um dos coordenadores das oficinas criativas que se realizam no âmbito d'A Bienal na Escola: "Os agrupamentos escolares não estão ainda sensibilizados para estas questões que estamos aqui a discutir". E deu este exemplo: "Trabalho com crianças de 3 e 4 anos e algumas revelam ser sobredotadas para as artes, mas a verdade é que se não houver um acompanhamento, um estímulo contínuo essa capacidade acaba por se perder", assegurou o vencedor da primeira Bienal de Vila Verde. 

O jovem artista vilaverdense fez uma leitura da realidade atual, revelando conclusões de conversas que durante esta semana teve com Luís Coquenão e com Rafael Cruz. As conclusões a que chegaram é que, "apesar de o público local não dar valor ao que tem, não visitar este evento, que é gratuito, isso não quer dizer que o mesmo não tenha valor. É preciso ver que tudo é relativo e que o que não damos valor, para outros é considerado uma riqueza", acrescentou o jovem artista, mencionando o exemplo de uma visita em que levaram o colega mexicano a conhecer a Praia Fluvial do Faial (Vila de Prado) e este confessou que aquilo no país dele era considerado um luxo, pago e só acessível a ricos.

Manuel Barros revelou uma intenção que o Município de Vila Verde já tem assumida de fazer crescer este evento: "Apesar de a Biblioteca ficar sempre associada como 'o berço' desta Bienal, nesta fase está a 'estrangular' o certame e os artistas que nela participam". A mesma ideia foi expressada por Maciel Cardeira, exemplificando que "as obras estão cada vez mais pequenas e já nem esculturas recebemos, porque os artistas também investem cada vez menos". O mexicano Rafael Cruz, finalizou lançando o desafio esperançoso: "Não desistam de fazer uma Bienal maior porque tornar-se-à mesmo conhecida internacionalmente".

Para os artistas e para os decisores parece não restar dúvidas sobre a relevância cada vez mais distintiva da arte nas sociedades futuras. "Num futuro não muito longinquo, marcado pelo domínio das máquinas, é a criatividade e a arte, produzidos pela mente humana, que vão solucionar os problemas e marcar a diferença", assim leu Maciel Cardeira o futuro da humanidade. "O Caminho é as Artes. É preciso educar as criaças para as artes", sentenciou.

Em suma, em tempos de dificuldade económica, dominada pela competitividade no ato da criação de atratividade para os terrirórios, Vila Verde, está apostado em investir, cada vez mais, nas artes e na cultura, que representa também uma aposta nas pessoas: "Tudo o que escutei aqui vai de encontro á política que o Município que lidero está a implementar. Não apostamos apenas na cultura, mas em formar as pessoas nesse sentido, em formar uma sociedade mais sensivel e crítica para as artes. Os territórios serão tanto mais ricos, quão mais formados forem os seus cidadãos", concluiu o presidente do Município de Vila Verde.

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